Líder da Missão Mais fala sobre Igreja Sofredora, conversão e chamado cristão

Foto: Arquivo Pessoal
Com frequência, surgem notícias sobre guerras, conflitos, atentados,
ações de extremistas contra grupos religiosos, além de catástrofes
naturais, acidentes, enfim, acontecimentos diversos ao redor do mundo.
Quais as consequências disso para a Igreja Cristã? Como os cristãos têm
reagido diante de tantas tragédias?
O Lagoinha.com conversou com o pastor Mário Freitas, da Missão em
Apoio à Igreja Sofredora (MAIS), que falou sobre a situação da Síria e
do Iraque no âmbito cristão, a Igreja Perseguida, a conversão de
muçulmanos ao cristianismo, a relação cristãos perseguidos x volta de
Jesus e a reação da Igreja diante das tragédias no mundo, além do papel
do todo cristão.
Confira entrevista:
A perseguição influencia o crescimento da Igreja Cristã?

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“Por um lado, em geral, perseguição gera fortalecimento da Igreja,
gera conversão. As igrejas mais maduras que eu conheço são igrejas
perseguidas. Tem países que posso te afirmar, mesmo sem ter informações
de lá todos os dias por serem países tão fechados, com pouca
comunicação, que a Igreja tem feito seu trabalho, tem crescido, Deus tem
se revelado de maneiras sobrenaturais. Pessoas têm se convertido. É o
caso da Coreia do Norte, da Arábia Saudita, do Irã, de onde temos
recebido narrativas constantes de conversão. Está acontecendo algo
fabuloso.
Agora, esses países não estão em guerra. Não é todo mundo que
consegue entender a diferença entre perseguição religiosa e guerra. No
caso da Síria, por exemplo, a Igreja não tem crescido porque as pessoas
estão fugindo de lá. Diria que sírios estão se convertendo, porque tem
pessoas que eu vejo se converterem no Brasil ao virem para cá como
refugiadas. Mas a Igreja não está crescendo na Síria, para nossa
tristeza. Dos 21 milhões de sírios que havia lá, oito milhões já saíram.
Não é uma saída por conta da perseguição, mas em decorrência da guerra.
Algumas cidades estão inviáveis. A gente tem imagens aéreas de drones.
Não há como habitar lá.
Enquanto era só perseguição, essas igrejas cresciam. Aí a gente entra
em um outro problema que é o fenômeno migratório que o mundo está
vivendo. A Igreja é afetada nesses locais. A Igreja do Iraque e a da
Síria, enquanto elas eram perseguidas, eu podia dizer: “Vamos fortalecer
esses irmãos para que eles fiquem lá”. Mas eles não estão sendo
perseguidos, estão debaixo de guerra, que não só os afeta, mas até os
muçulmanos. Tanto que eles também têm fugido e, muitas vezes, pedido
ajuda em nossas bases fora do Brasil.
Muçulmanos têm se convertido ao verem perseguição a cristãos?

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Sim. Isso tem acontecido. Temos relatos, por exemplo, de um guarda de
prisioneiros do Estado Islâmico que teria se convertido ao ver as
pessoas sendo torturadas e não negarem sua fé. O que está acontecendo no
Irã é esse fenômeno. Jovens têm se convertido decepcionados com o islã.
“Como a nossa fé pode promover essa matança?”, eles questionam. Então,
tem sido um momento em que Deus tem usado até isso”.
Como você relaciona a perseguição à Igreja com a volta de Jesus?

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“Eu relaciono muito. Não sou um especialista em escatologia, mas não
tem como você ler Daniel 7, por exemplo, e não fazer concepções. Mas,
independentemente de interpretações, a Bíblia diz que os últimos dias
seriam extremamente maus, e acho que a gente está muito perto do ápice
da maldade humana. Com crianças de 12 anos sendo crucificadas porque são
de famílias cristãs, meninas sendo vendidas a 100 libras esterlinas
como escravas sexuais, tráfico humano em um nível que nunca aconteceu
antes na história da humanidade. Acho que Jesus está voltando, sim, e a
Igreja precisa saber muito bem como se posicionar e servi-Lo neste
momento”.
Qual é a reação da Igreja diante das notícias de tragédias na mídia?

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“Infelizmente, a Igreja brasileira, talvez toda a Igreja ocidental, é
movida por impactos midiáticos. Aconteceu um terremoto. Naquele momento
as pessoas se engajam, se for de uma proporção chocante. Aconteceu uma
decapitação de 21 cristãos na praia. Todo mundo se engaja. Apareceu o
corpo de uma criancinha boiando na costa da Turquia. Está todo mundo
preocupado com crise migratória. Mas a constância disso precisava de uma
percepção teológica, que envolve desde a volta de Jesus até a nossa
eclesiologia, o que a gente nasceu para ser como Igreja. Porque as
nossas convicções teológicas são muito “ensimesmadas”, são muito de
reparação, de restauração de elementos pessoais, de buscar aquilo que
foi perdido na própria vida.
Então, não acredito que a Igreja está efetivamente tocada. Quando ela
se toca, é por identificação, o que é comum. Olhei o corpo daquela
criancinha. Tenho um filho de dois anos que dorme daquele jeito. Então,
você se identifica com aquilo. A gente não está muito identificado com o
problema porque ele ainda é pequeno para nós, está distante. Acho que à
medida que o Brasil for islamizado, que o filho do cristão começar a
chegar em casa com uma versão jovem do alcorão que ele ganhou na escola
de outro menino, talvez a sociedade cristã comece a se preocupar um
pouco mais. Então, enquanto não houver identificação, muito coisa não
vai tocar tanto a Igreja”.
O que é preciso para cumprir o “ide”?

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“Acredito que uma das coisas que a gente precisa pensar é que todo
cristão tem um chamado, não existe um crente sem chamado. Posso não ter
todas as informações sobre o meu chamado, mas eu tenho um. Se a gente
ver somente alguns como chamados, nosso papel será passivo, no máximo,
uma contribuição. Quando lembrar, uma intercessão. Agora, se eu me ver
como chamado, mesmo que eu não possa ir, estou envolvido no que Deus
está fazendo na história.
O meu convite, o meu desafio, seria que cada um pedisse a Deus essa
confirmação vocacional, se entendesse com chamado. Como a Escritura diz:
“Ele nos reconciliou consigo mesmo e nos fez ministros da
reconciliação” (2 Coríntios 5.18). Isso foi no mesmo dia, no mesmo ato.
Ou seja, no dia em que fui salvo, me foi dada a responsabilidade de
salvar. Então, esse conceito precisa ser restaurado na Igreja”.
Sobre a Missão Mais

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O principal objetivo da Missão Mais é fortalecer os cristãos da
Igreja Sofredora. “Como Igreja Sofredora a gente não entende somente a
Igreja Perseguida, mas também a Igreja pós-catástrofe”, explica Mário
Freitas. Esse apoio é espiritual, pastoral, mas ele é muito físico
também. Tem muito a ver com programas de desenvolvimento humanitário”.
Ou seja, o intuito é “não ver só as necessidades espirituais do Corpo de
Cristo, mas também necessidades físicas”.
Hoje, a Missão Mais tem bases em dez localidades diferentes no mundo,
sendo que cada uma delas pode ter projetos em mais de um país,
portanto, a atuação tem sido em, aproximadamente, 16 nações. No Haiti,
por exemplo, o trabalho é realizado desde o terremoto em 2010. “É um
projeto que a gente julga como bem-sucedido, no sentido de que hoje a
nossa equipe toda é haitiana. Não temos missionários brasileiros lá.
Esse é o objetivo para todos os outros lugares”, explica Mário. A missão
também tem base em Uganda, Oriente Médio, Ásia Central, Tailândia,
Colômbia, Guiné-Bissau, Itália e no sertão do Brasil, além de Vitória
(ES). “A gente está no processo de abrir uma nova base, na Turquia”,
diz.
Desde novembro de 2013, o projeto já recebeu mais de 200 refugiados.
Aproximadamente 90% deles são sírios. “Tem poucas exceções, mas quase
todo mundo é da Síria”, diz Mário. Na chegada ao Brasil, eles são
abrigados na base missionária, onde permanecem de 40 a 60 dias, são
cuidados, documentados e enviados para igrejas com as quais a Missão
Mais tem parceria, como a Igreja Batista da Lagoinha.
:: Dayane Nascimento