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sexta-feira, 29 de março de 2019

O poder do alto contra as hostes da maldade



Mãos em forma de prece. (Photo by Amaury Gutierrez)
Mãos em forma de prece

A Lição de hoje está baseada no trabalho missionário do diácono Filipe e dos apóstolos Pedro e João na região de Samaria, após a perseguição que dispersou muitos crentes de Jerusalém (Atos 8). Ali vemos desmoronarem pelo poder do Espírito muros de separação racial e religiosa, vemos a atuação demoníaca sofrer recuo, e ainda setas de ganancia provenientes de satanás sendo jogadas ao chão! O trabalho dos apóstolos ensina aos crentes neófitos de Samaria que não só a salvação como também o poder do Espírito Santo são obras da graça de Deus. Não se compra, nem se vende, se recebe pela fé! Não para promoção pessoal, mas para exaltação do nome de Cristo!

I. O contexto histórico de Samaria

1. Cidade e província de Samaria

O nome Samaria pode referir-se tanto a cidade como à região, província ou território dos samaritanos. Como cidade, fora a antiga capital do Reino Norte, após a divisão de Israel em dois reinos (a capital do Reino Sul fora Jerusalém). Como região, na época de Jesus, Samaria era uma das três províncias em que a Palestina a oeste do rio Jordão estava dividida (as outras duas eram Galiléia e Judéia)
Situada entre a Galileia e a Judéia, Samaria era a rota natural entre essas províncias. Mas, por causa dos casamentos mistos entre judeus e estrangeiros, os judeus ortodoxos não se davam com os samaritanos (Jo 4.9), e preferiam viajar para leste, cruzando o rio Jordão, a passar pelas terras de Samaria.
Afim de quebrar esse paradigma de preconceito racial, o texto bíblico destaca sobre Jesus que “era-lhe necessário passar por Samaria” (Jo 4.4). É necessário quebrarmos as discriminações pelo poder do evangelho da paz (Ef 6.15), isto é, o evangelho do amor de Deus pelo mundo inteiro (Jo 3.16) e da reconciliação que Ele está a fazer por meio de seu Filho Jesus! (2Co 5.19).

2. Características dos samaritanos

a) Povo misto

Após a queda do Reino Norte (Israel), em 722 a.C., a cidade de Samaria foi habitada por colonos trazidos pelos assírios. Esses colonos se casaram com os judeus remanescentes, e os samaritanos eram os descendentes nascidos desses casamentos mistos. A partir daí surge grande inimizade entre os judeus ortodoxos (considerados “puros”) e os israelitas mistos, isto é, fruto de casamento entre israelitas e estrangeiros.
Tal rivalidade se pode perceber nos casos da reconstrução do templo, após o exílio babilônico, nos dias de Zorobabel, quando os samaritanos tentaram impedir a conclusão da obra (Ed 4.1-10), ou quando os samaritanos junto com os árabes tentaram embargar a reconstrução do muro de Jerusalém nos dias de Neemias (Ne 2.10-6.14). O sacerdote e escriba Esdras, em seu zelo pela pureza racial, pressionou todos os homens israelitas que se tinham casado durante o cativeiro a se divorciarem de suas esposas pagãs (Ed 10.18-44).

b) Religião própria

Os samaritanos rejeitavam todo o Antigo Testamento, à exceção do Pentateuco, os cinco livros de Moisés, reunidos no que se chama atualmente de Pentateuco Samaritano, que, segundo Esequias Soares [1], possui cerca de 6 mil variantes em relação ao Pentateuco Hebraico. Além disso, construíram um templo no monte Gerizim que rivalizava com o templo judeu em Jerusalém.

c) Sincretismo

Assim como os judeus, samaritanos também por vezes envolviam-se em práticas idólatras, embora a politeísmo não seja a doutrina dos samaritanos, como também não é dos judeus. O judaísmo nunca os considerou idólatras. Na verdade, os samaritanos eram extremamente monoteístas, sendo ainda mais rigorosos que os judeus na observância da lei de Moisés, especialmente quanto ao sábado. Todavia, seu grande problema era o sincretismo, isto é, a mescla de crenças ou práticas não-ortodoxas e até pagãs com os ensinos do Pentateuco mosaico. A fácil sedução dos samaritanos pelas artes mágicas de Simão, demonstram esse caráter sincrético de sua fé.

d) Conduta moral

O historiador judeu Flávio Josefo indica que os samaritanos também eram oportunistas. Quando os judeus gozavam de prosperidade, os samaritanos rapidamente procuravam reconhecer seus laços de sangue. Mas, quando os judeus enfrentavam tempos difíceis, os samaritanos negavam qualquer parentesco, declarando que eram descendentes de imigrantes assírios [2].

e) Atualidade

Segundo o Dicionário Ilustrado da Bíblia [3], dois pequenos grupos de samaritanos sobrevivem até os dias de hoje: um em Neblus (antiga Siquém) e o outro em Tel Aviv. Os samaritanos remanescentes retiveram sua crença monoteísta: Deus como o único Criador e Sustentador de todas as coisas. Eles também o adoram em três festas prescritas no Pentateuco: Páscoa, Pentecostes e Cabanas (ou Tabernáculos), além da comemoração solene do Dia da Expiação. Sua fé, porém, sofreu influência do Islamismo e de outras crenças (vê-se assim que o sincretismo persiste entre os samaritanos), ao contrário da comunidade judaica ortodoxa. Até o dia de hoje, eles sacrificam um ou mais cordeiros no monte Gerizim, durante a festa da Páscoa.

II. O evangelho entre os samaritanos

1. Jesus e os samaritanos

Apesar das primeiras proibições de Jesus para que os discípulos evitassem o território dos samaritanos (Mt 10.5,6), isso de modo algum significava que Jesus estava compactuando com a rixa histórica entre judeus e samaritanos, antes estava apenas estabelecendo as prioridades missionárias. As “ovelhas perdidas da casa de Israel” deviam ser buscadas primeiro, mas sem negar a oferta da graça a quaisquer pessoas que necessitasse e viessem em busca dela. Deus amou o mundo inteiro (Jo 3.16; 1Jo 2.2), o que inclui também o povo samaritano.
Jesus demonstra apreço pelos samaritanos nalgumas ocasiões muito conhecidas do evangelho de Lucas, que, diga-se de passagem, deu bastante ênfase à obra de Deus entre os samaritanos, mais que qualquer outro autor do Novo Testamento. Terá sido pelo fato de Lucas, um escritor estrangeiro (gentio), ter tido maior empatia pelos estrangeiros, por ter ele mesmo sentido na pele a força desse amor divino que é suprarracial? Vejamos alguns desses casos do amor de Cristo pelos samaritanos.
a) Quando na parábola do “bom samaritano”, usa a compaixão de um samaritano como exemplo de amor ao próximo para os judeus (Lc 10.30-37);
b) Quando enaltece a atitude de gratidão de um ex-leproso que fora curado (Lc 17.11-19);
c) Quando repreende seus apóstolos Tiago e João que queriam pedir fogo do céu para destruir um vilarejo samaritano que não se mostrou hospitaleiro (Lc 9.52-56);
d) Quando assegura a inclusão de Samaria, tanto quanto Jerusalém e toda a Judéia, no programa missionário da igreja aviva pelo poder do Espírito (At 1.8). Lembremo-nos que o livro de Atos dos Apóstolos é também da autoria de Lucas (Lc 1.1; At 1.1)
Temos também no evangelho de João (cap. 4) um detalhado relato do encontro de Jesus com a mulher samaritana. Ali, muitos preconceitos sociais foram derrubados pela misericórdia do Senhor: preconceito sexista – Jesus conversa com uma mulher; preconceito racial – Jesus conversa com uma samaritana; preconceito religioso – Jesus, um judeu, instrui uma mulher samaritana e lhe explica verdades teológicas que ela nunca dantes compreendera. Não só a mulher creu que Jesus era o Cristo (Jo 4.29), como ainda tornou-se a primeira crente evangelizadora daquela região, quando voltou à sua cidade e convidou os homens dali para virem conhecer Jesus. Estes por sua vez, após verem e ouvirem Jesus, e ainda lhe concederem estadia de dois dias (v. 40), “creram nele, por causa da sua palavra” (v. 41). Eles mesmos testemunharam o caráter suprarracial da salvação, quando afirmaram: “sabemos que este é verdadeiramente o Cristo [isto é, o Messias – v. 25], o Salvador do mundo”(v. 42).
A Lição de hoje está baseada no trabalho missionário do diácono Filipe e dos apóstolos Pedro e João na região de Samaria, após a perseguição que dispersou muitos crentes de Jerusalém (Atos 8). Ali vemos desmoronarem pelo poder do Espírito muros de separação racial e religiosa, vemos a atuação demoníaca sofrer recuo, e ainda setas de ganancia provenientes de satanás sendo jogadas ao chão! O trabalho dos apóstolos ensina aos crentes neófitos de Samaria que não só a salvação como também o poder do Espírito Santo são obras da graça de Deus. Não se compra, nem se vende, se recebe pela fé! Não para promoção pessoal, mas para exaltação do nome de Cristo!

I. O contexto histórico de Samaria

1. Cidade e província de Samaria

O nome Samaria pode referir-se tanto a cidade como à região, província ou território dos samaritanos. Como cidade, fora a antiga capital do Reino Norte, após a divisão de Israel em dois reinos (a capital do Reino Sul fora Jerusalém). Como região, na época de Jesus, Samaria era uma das três províncias em que a Palestina a oeste do rio Jordão estava dividida (as outras duas eram Galiléia e Judéia)
Situada entre a Galileia e a Judéia, Samaria era a rota natural entre essas províncias. Mas, por causa dos casamentos mistos entre judeus e estrangeiros, os judeus ortodoxos não se davam com os samaritanos (Jo 4.9), e preferiam viajar para leste, cruzando o rio Jordão, a passar pelas terras de Samaria.
Afim de quebrar esse paradigma de preconceito racial, o texto bíblico destaca sobre Jesus que “era-lhe necessário passar por Samaria” (Jo 4.4). É necessário quebrarmos as discriminações pelo poder do evangelho da paz (Ef 6.15), isto é, o evangelho do amor de Deus pelo mundo inteiro (Jo 3.16) e da reconciliação que Ele está a fazer por meio de seu Filho Jesus! (2Co 5.19).

2. Características dos samaritanos

a) Povo misto

Após a queda do Reino Norte (Israel), em 722 a.C., a cidade de Samaria foi habitada por colonos trazidos pelos assírios. Esses colonos se casaram com os judeus remanescentes, e os samaritanos eram os descendentes nascidos desses casamentos mistos. A partir daí surge grande inimizade entre os judeus ortodoxos (considerados “puros”) e os israelitas mistos, isto é, fruto de casamento entre israelitas e estrangeiros.
Tal rivalidade se pode perceber nos casos da reconstrução do templo, após o exílio babilônico, nos dias de Zorobabel, quando os samaritanos tentaram impedir a conclusão da obra (Ed 4.1-10), ou quando os samaritanos junto com os árabes tentaram embargar a reconstrução do muro de Jerusalém nos dias de Neemias (Ne 2.10-6.14). O sacerdote e escriba Esdras, em seu zelo pela pureza racial, pressionou todos os homens israelitas que se tinham casado durante o cativeiro a se divorciarem de suas esposas pagãs (Ed 10.18-44).
b) Religião própria
Os samaritanos rejeitavam todo o Antigo Testamento, à exceção do Pentateuco, os cinco livros de Moisés, reunidos no que se chama atualmente de Pentateuco Samaritano, que, segundo Esequias Soares [1], possui cerca de 6 mil variantes em relação ao Pentateuco Hebraico. Além disso, construíram um templo no monte Gerizim que rivalizava com o templo judeu em Jerusalém.

c) Sincretismo

Assim como os judeus, samaritanos também por vezes envolviam-se em práticas idólatras, embora a politeísmo não seja a doutrina dos samaritanos, como também não é dos judeus. O judaísmo nunca os considerou idólatras. Na verdade, os samaritanos eram extremamente monoteístas, sendo ainda mais rigorosos que os judeus na observância da lei de Moisés, especialmente quanto ao sábado. Todavia, seu grande problema era o sincretismo, isto é, a mescla de crenças ou práticas não-ortodoxas e até pagãs com os ensinos do Pentateuco mosaico. A fácil sedução dos samaritanos pelas artes mágicas de Simão, demonstram esse caráter sincrético de sua fé.

d) Conduta moral

O historiador judeu Flávio Josefo indica que os samaritanos também eram oportunistas. Quando os judeus gozavam de prosperidade, os samaritanos rapidamente procuravam reconhecer seus laços de sangue. Mas, quando os judeus enfrentavam tempos difíceis, os samaritanos negavam qualquer parentesco, declarando que eram descendentes de imigrantes assírios [2].

e) Atualidade

Segundo o Dicionário Ilustrado da Bíblia [3], dois pequenos grupos de samaritanos sobrevivem até os dias de hoje: um em Neblus (antiga Siquém) e o outro em Tel Aviv. Os samaritanos remanescentes retiveram sua crença monoteísta: Deus como o único Criador e Sustentador de todas as coisas. Eles também o adoram em três festas prescritas no Pentateuco: Páscoa, Pentecostes e Cabanas (ou Tabernáculos), além da comemoração solene do Dia da Expiação. Sua fé, porém, sofreu influência do Islamismo e de outras crenças (vê-se assim que o sincretismo persiste entre os samaritanos), ao contrário da comunidade judaica ortodoxa. Até o dia de hoje, eles sacrificam um ou mais cordeiros no monte Gerizim, durante a festa da Páscoa.
II. O evangelho entre os samaritanos

1. Jesus e os samaritanos

Apesar das primeiras proibições de Jesus para que os discípulos evitassem o território dos samaritanos (Mt 10.5,6), isso de modo algum significava que Jesus estava compactuando com a rixa histórica entre judeus e samaritanos, antes estava apenas estabelecendo as prioridades missionárias. As “ovelhas perdidas da casa de Israel” deviam ser buscadas primeiro, mas sem negar a oferta da graça a quaisquer pessoas que necessitasse e viessem em busca dela. Deus amou o mundo inteiro (Jo 3.16; 1Jo 2.2), o que inclui também o povo samaritano.
Jesus demonstra apreço pelos samaritanos nalgumas ocasiões muito conhecidas do evangelho de Lucas, que, diga-se de passagem, deu bastante ênfase à obra de Deus entre os samaritanos, mais que qualquer outro autor do Novo Testamento. Terá sido pelo fato de Lucas, um escritor estrangeiro (gentio), ter tido maior empatia pelos estrangeiros, por ter ele mesmo sentido na pele a força desse amor divino que é suprarracial? Vejamos alguns desses casos do amor de Cristo pelos samaritanos.
a) Quando na parábola do “bom samaritano”, usa a compaixão de um samaritano como exemplo de amor ao próximo para os judeus (Lc 10.30-37);
b) Quando enaltece a atitude de gratidão de um ex-leproso que fora curado (Lc 17.11-19);
c) Quando repreende seus apóstolos Tiago e João que queriam pedir fogo do céu para destruir um vilarejo samaritano que não se mostrou hospitaleiro (Lc 9.52-56);
d) Quando assegura a inclusão de Samaria, tanto quanto Jerusalém e toda a Judéia, no programa missionário da igreja aviva pelo poder do Espírito (At 1.8). Lembremo-nos que o livro de Atos dos Apóstolos é também da autoria de Lucas (Lc 1.1; At 1.1)
Temos também no evangelho de João (cap. 4) um detalhado relato do encontro de Jesus com a mulher samaritana. Ali, muitos preconceitos sociais foram derrubados pela misericórdia do Senhor: preconceito sexista – Jesus conversa com uma mulher; preconceito racial – Jesus conversa com uma samaritana; preconceito religioso – Jesus, um judeu, instrui uma mulher samaritana e lhe explica verdades teológicas que ela nunca dantes compreendera. Não só a mulher creu que Jesus era o Cristo (Jo 4.29), como ainda tornou-se a primeira crente evangelizadora daquela região, quando voltou à sua cidade e convidou os homens dali para virem conhecer Jesus. Estes por sua vez, após verem e ouvirem Jesus, e ainda lhe concederem estadia de dois dias (v. 40), “creram nele, por causa da sua palavra” (v. 41). Eles mesmos testemunharam o caráter suprarracial da salvação, quando afirmaram: “sabemos que este é verdadeiramente o Cristo [isto é, o Messias – v. 25], o Salvador do mundo”(v. 42).
2. O poder de Deus entre os samaritanos
A promessa de Jesus aos seus discípulos foi: “Mas recebereis a virtude do Espírito Santo, que há de vir sobre vós; e ser-me-eis testemunhas, tanto em Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria, e até aos confins da terra” (At 1.8). Essa “virtude” (ARC) é na verdade o “poder” (ARA, NVI), o poderoso dunamis (grego) do Espírito que capacitaria os crentes para propagação universal do evangelho e até mesmo para fortalecer-lhes diante das ameaças de morte cruel (a palavra “testemunhas” no texto grego é martys, mesma palavra usada para se referir a um mártir, isto é, alguém que prova a força de sua pregação e a lealdade de sua fé por meio da morte violenta).
Esse dunamis do Espírito foi derramado inicialmente em Jerusalém no dia de Pentecostes (At 2), e por ocasião da grande perseguição que alguns anos depois foi movida contra os cristãos após a morte de Estevão (At 8.1,5ss) chegou também a Samaria com o ministério evangelístico de Felipe, um dos sete diáconos da igreja.
Na Igreja primitiva havia alguns judeus cristão chamados de helenistas, isto é, que tinham grande afinidade com a língua e a cultura grega, bem como com os povos estrangeiros. Estes cristãos demonstravam ter uma visão missionária mais ampla, sem aquela resistência encontrada nos primeiros apóstolos de Cristo, como Pedro, que relutou em evangelizar os gentios. Felipe era um destes cristãos helenistas que, revestido pelo poder do Espírito Santo, não fez caso de batalhar pela disseminação da maravilhosa mensagem do evangelho de Cristo e pela operação do poder do Espírito em território samaritano. O caminho já tinha sido aberto alguns anos antes pelo próprio Senhor Jesus, e certamente muitos ali ainda lembravam do Messias que conheceram outrora pessoalmente. Todavia, as pelejas raciais persistiam e somente o evangelho de poder poderia dissolvê-las!
Aliás, visto que nossos estudos deste trimestre estão submetidos ao tema geral “batalha espiritual: o povo de Deus e a guerra contra as potestades do mal”, poderíamos fazer uma pertinente correlação entre o preconceito racial e a operação tirânica de Satanás, que, sem dúvida, é o maior interessado na perpetuação do ódio entre os povos e das contendas entre os homens, ainda que tais contendas tenham suas premissas teológicas. Igualmente há uma correlação entre a operação do Espírito Santo e a reaproximação dos povos, de modo que pelo vínculo da paz se possa estabelecer que “Há um só corpo e um só Espírito, como também fostes chamados em uma só esperança da vossa vocação; um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, e por todos e em todos vós” (Ef 4.4-6). O poder do Espírito traz unidade no Espírito, pois “Deus não é Deus de confusão, senão de paz” (1Co 14.33)

3. A repreensão do apóstolo Pedro

Com a chegada de Pedro e João no território samaritano para dar apoio ao trabalho de Filipe, uma nova efusão de poder ocorreu ali: “Então lhes impuseram as mãos, e receberam o Espírito Santo” (At 8.17). Já eram crentes, já eram salvos, já tinha o Espírito internamente – não há regeneração sem uma ação direta do Espírito Santo no interior (Jo 3.5) –, mas faltava-lhes o maravilhoso revestimento do poder do alto, tal qual fora derramado sobre os cento e vinte crentes em Jerusalém no dia de Pentecostes.
Simão, que havia crido, se batizado nas águas, deixado a magia e agora acompanhava Filipe por onde ele fosse, vendo tamanho poder sobrenatural sendo manifesto sobre os crentes samaritanos pela imposição de mãos dos apóstolos, deixou a tentação do poder e da fama voltar ao controle de seu coração. Teria Simão se impressionado com o falar em línguas? Muito provavelmente, embora não podemos ser dogmáticos nessa questão. Fato é que algo do poder de Deus lhe impressionou e ali o engano encontrou uma brecha em seu coração: “…lhes ofereceu dinheiro, dizendo: Dai-me também a mim esse poder, para que aquele sobre quem eu puser as mãos receba o Espírito Santo” (At 8.18,19).
Desta atitude leviana de Simão é que surgiu na idade medieval o uso da palavra simonia, que, segundo Champlin, é um termo que “indica a venda de ofícios e cargos eclesiásticos, ou a compra de privilégios, prestígio e ofícios religiosos, com o acompanhamento natural da negligência do exame que busca ver se o candidato está qualificado ou merece as posições assim obtidas” [7]. Há muitos falsos operadores de milagres mundo a fora fazendo simonia, negociando cargos na Igreja do Senhor ou comercializando bênçãos! E se engana quem pensa que a simonia é uma prática que se resume aos ambientes eclesiásticos; basta ver como se multiplicam os profetas das lives nas redes sociais, cobrando 10 reais de um, 20 reais de outro e 50 reais de outro sob o pretexto de “longas orações” (Mt 23.14) e de campanhas de jejuns e vitória! Inclusive, muitos jovens, analfabetos de Bíblia, inimigos da Escola Dominical, que encontraram nestas lives e nas falsas revelações um jeito fácil de ganhar a vida!
Pedro, porém, rejeitou a oferta do desviado Simão! Aquele que não tinha prata nem ouro (At 3.6), e que podia, se ganancioso, ver uma suposta “oferta missionária” nas mãos de Simão, viu na verdade uma oferta promíscua, uma tentativa descarada de querer barganhar com Deus! Pedro sabia que não se podia com palavras fingidas fazer negócio com as coisas de Deus (2Pe 2.3), então repreende Simão e ordena-lhe que se arrependa (At 8.20-23). Na batalha espiritual contra a ganância, o contentamento do evangelho deve sempre prevalecer! Na batalha espiritual contra a heresia, a verdade de Deus deve ser nosso estandarte! O que parecia ser uma oportunidade de lucro para Simão, fora encarado como laço de iniquidade por Pedro.
Agora, sobre esta batalha espiritual na qual Pedro foi de pronto um vencedor, é preciso atentar, como bem pontua Orlando Boyer, que “não somente os descrentes (…) mas são, também, muitos dos próprios crentes que fracassam quando têm de enfrentar essa tentação insidiosa” [8]. Como temos lidado com a oferta de dinheiro fácil? Como temos lidado com o poder do Espírito de Deus operando em nós? Aliás, esta é uma das mais ardilosas tentações de Satanás: quando não pode nos privar do poder, ele nos tenta para usarmos indevidamente este poder.
Satanás tentou Jesus para usar o poder de operação de maravilhas para benefício próprio – transforma estas pedras em pães – e, agora, Pedro, tentado a usar o poder do Espírito para também se beneficiar e angariar lucros; mas, assim como seu amado Senhor, Pedro disse não à tentação e repreendeu aquele que lhe buscava seduzir ao engano. A avareza que outrora dominou o coração do apóstolo traidor, Judas Iscariotes, não achou abrigo no coração do apóstolo Pedro!

Conclusão

Não só precisamos do poder do alto para vencer as hostes do mal, como precisamos saber usar este poder do alto para o que é correto e da maneira devida. Creio ser esta a grande lição do confronto de Simão Pedro com Simão, o ex-mágico. Como estamos lidando com os dons e talentos que Deus nos concedeu por empréstimo? Estamos usando para, gratuitamente, promover o nome de Cristo, a salvação dos pecadores, a edificação da igreja e a restauração dos feridos e oprimidos do diabo, ou estamos buscando escalar fama, poder e riquezas? No coração de alguns, esta luta é mais intensa que noutros. Tanto quem já lidou com muito dinheiro outrora, como Simão, ex-mágico, como quem não tem prata nem ouro, como Simão Pedro, podem incorrer na tentação pela comercialização das coisas de Deus. Temos dois “Simões” nessa Lição de hoje. Que Simão você prefere ser?
____________
Referências
[1] Esequias Soares. Batalha espiritual: o povo de Deus e a guerra contra as potestades do mal, CPAD, p. 125
[2] Dicionário Ilustrado da Bíblia, Vida Nova, p. 1292
[3] Op. cit., pp. 1292,3
[4] Craig Keener. Comentário histórico-cultural da Bíblia – Novo Testamento, Vida Nova, p. 407
[5] Orlando Boyer. Espada Cortante 2, CPAD, p. 467
[6] Craig Keener. Op. cit.
[7] R.N. Champlin. Enciclopédia de Bíblia, Teologia e Filosofia, vol. 6, Hagnos, p. 217
[8] Orlando Boyer. Op. cit.
por Tiago Rosas

Deputado propõe pena de até 20 anos para crimes de intolerância religiosa


Satanás e Jesus no desfile da Gaviões da Fiel. (Foto: Reprodução / TV Globo)



O autor do texto é deputado Alex Santana (PDT-BA), pastor da Assembleia de Deus   
O deputado federal Alex Santana (PDT-BA) apresentou um projeto de lei para aumentar em até 20 anos a pena dos que praticarem crimes de intolerância religiosa.

Na justificativa do projeto o parlamentar, que é pastor da Assembleia de Deus, comenta sobre a escola de samba Gaviões da Fiel que mostrou Jesus apanhando do diabo. “Festas carnavalescas e nos movimentos festivos de alguns segmentos, vimos símbolos religiosos católicos e evangélicos sendo vilipendiados, a despeito do argumento de ser arte e cultura”.
Atualmente a pena para este crime é de 1 ano de prisão. O projeto do deputado é para mínima de 10 anos e 20 anos na máxima.
Mexer com a religião de ‘outrem’ é de uma ofensa gigantesca. Mexer com o que para outro é considerado sagrado não pode continuar desta forma impunemente”, declarou o deputado do PDT.
Outro projeto sobre o mesmo assunto foi apresentado por Fernando Rodolfo (PR-PE) que pede pena de seis anos para quem debochar de símbolos religiosos adicionando a “blasfêmia” no Artigo 208 do código penal.
por Redação (Gospel Prime)

Hannah, uma cristã em duas coreias




A cristã perseguida Hannah conta a diferença entre a vida na Coreia do Norte e na Coreia do Sul

 Na Coreia do Sul, Hannah aponta para um campo de trabalho forçado na Coreia do Norte, seu país
Em uma carta à Portas Abertas, a cristã norte-coreana Hannah (pseudônimo) escreveu que quando ouviu pela primeira vez o hino nacional da Coreia do Sul, ficou abismada com uma frase: “Que Deus mantenha nosso país unido e preserve nossa terra”. Hoje ela vive na Coreia do Sul e diz que a melhor coisa de morar lá é que poder adorar o pai celestial livremente. Ela diz: “Ninguém morre de fome nas ruas, ninguém se preocupa sobre o que comer ou onde dormir. As ruas são limpas, os sul-coreanos são alegres e têm liberdade de discurso. Eu descobri que há cruzes de igrejas em todo lugar que vou na Coreia do Sul, esse é um país que confia e ama a Deus”.
Hannah fica admirada com a diferença em comparação à vida na Coreia do Norte. Sobre sua vida na Coreia do Sul, ela diz: “Eu não me preocupo de ser capturada ou deportada de volta à Coreia do Norte. Tenho um passaporte sul-coreano e posso viajar livremente para qualquer país”. Ela também viaja a vários países contando seu testemunho e, assim, renovando a fé de muitos da igreja livre.
Ela também compartilha como o Senhor abriu as portas da prisão e as algemas de forma milagrosa para ela e sua família saírem da prisão. O marido de Hannah morreu, mas suas três filhas estão na Coreia do Sul e todas elas vão à igreja. Somente seu filho continua na Coreia do Norte e não é cristão. Esse é seu maior pedido de oração: para que ela possa reencontrá-lo e compartilhar o evangelho com ele, pois não o vê há anos.
Pedidos de oração:
  • Ore para que o Senhor guarde e alcance o filho de Hannah com sua salvação.
  • Interceda por todos os cristãos que vivem na Coreia do Norte, sob um sistema de extrema repressão, para que sejam sustentados pelo Senhor.
  • Clame para que os norte-coreanos que chegam à Coreia do Sul tenham acesso às boas novas de salvação.
Domingo da Igreja Perseguida
O DIP deste ano abordará a Coreia do Norte, país número 1 na Lista Mundial da Perseguição desde 2002. Será uma grande oportunidade das igrejas brasileiras participarem do maior evento de oração em prol da Igreja Perseguida. Cadastre-se para realizar o DIP na sua igreja local no dia 16 de junho.
por Portas Abertas

Igrejas estão salvando a vida de mães e bebês no Togo



Casal ajudado em Togo (Foto: Compassion UK)


Comunidades cristãs oferecem “uma rede mais ampla de apoio” no país

O Togo, na África Ocidental, é um dos países menos desenvolvidos do mundo. Um em cada 20 bebês não chega a completar o primeiro ano de vida. Contudo, as igrejas estão desempenhando um papel vital em reverter essa estatística devastadora.

A alta taxa de mortalidade entre os recém-nascidos no Togo está relacionada a uma combinação de fatores, incluindo complicações na gravidez e no parto, infecções, doenças e desnutrição.
A missão Compassion está auxiliando no oferecimento de maternidades que podem, literalmente, significar a diferença entre a vida ou a morte das mães e seus bebês. Através dos projetos de “Sobrevivência Infantil”, a Compassion está trabalhando com igrejas para mudar isso, melhorando o acesso de mulheres grávidas a exames pré-natais e assistentes de parto treinados.
As mães togolesas também recebem informações que podem salvar vidas, como cuidados básicos de saúde, higiene, alimentos nutritivos e água potável.
Além disso, obreiros treinados nas igrejas estão à disposição para fornecer orientação, apoio e orientação espiritual para as famílias.
Justin Dowds, que lidera a Compassion no Reino Unido diz que “A pobreza tem um impacto devastador nas chances de sobrevivência de uma criança e seu desenvolvimento a longo prazo. Para evitar que mulheres e bebês morram desnecessariamente, precisamos alcançá-los cedo – antes mesmo de os bebês nascerem – e apoiar as mulheres”.
Ao mesmo tempo, Koffi Ahonon, da Compassion Togo, disse que trabalhar com a equipe local nas igrejas era fundamental para gerar “uma rede mais ampla de apoio”, onde as mães podem aprender a fazer boas escolhas para si e para seus filhos”.
Por Redação Gospel Prime

Cristão do Niger perde família por não se converter ao Islã



A família da esposa de Roger a tirou dele, junto com a filha de 5 anos, quando ele se recusou a se tornar muçulmano

Cristão do Níger perde família por não se converter ao islã Casal anda em rua residencial de Niamey, capital do Níger, onde é comum a esposa andar atrás do marido (foto representativa)
O Níger é um país formado por cerca de 18 milhões de muçulmanos. Há apenas cerca de 65 mil cristãos, que vivem principalmente no sul. Eles enfrentam vários desafios, inclusive pressão para se converter ao islã e marginalização econômica. Os programas da Portas Abertas visam ajudar a igreja a aumentar a resiliência conforme lidam com essas questões.
O país tem um governo democrático relativamente estável. Nas últimas décadas, a igreja tem desfrutado de liberdade religiosa. No entanto, a perseguição está em ascensão. Hoje, a maioria muçulmana e as influências extremistas externas continuam a pressionar pela adoção da sharia (conjunto de leis islâmicas).
Alguns anos atrás, o cristão do Níger, Roger, de 47 anos, se casou com uma mulher muçulmana. No começo, ela era uma boa esposa, mas com o tempo, ela e a família dela começaram a pressionar Roger para se converter ao islamismo. Até que chegou ao ponto em que a família da esposa lhe disse que se ele não se convertesse, eles levariam sua esposa e a filha de 5 anos. E foi o que fizeram quando Roger se recusou a negar sua fé em Jesus.
O ocorrido tem causado grande sofrimento a Roger, um irmão que agora precisa de suas orações para permanecer firme em Cristo. Ore por ele e também por sabedoria para os pastores que estão ao seu redor para aconselhá-lo. Interceda para que o coração de seus perseguidores seja transformado e eles sejam tocados através do testemunho de Roger.
 Por Portas Abertas

quinta-feira, 28 de março de 2019

Ore com Susanna Koh pela conclusão do inquérito sobre o pastor Koh



Conforme se aproxima a data para o anúncio da conclusão da investigação, 3 de abril, a irmã Susanna pede que continuemos orando

 Suas orações podem fortalecer a família Koh a continuar na luta pela resolução do caso do pastor Raymond Koh
A irmã Susanna Koh, esposa do pastor Raymond Koh, sequestrado na Malásia há mais de dois anos, pede que a igreja livre ore continuamente pelas conclusões do inquérito que investiga o desaparecimento de seu marido. A Comissão de Direitos Humanos da Malásia (Suhakam), que investiga o caso, deve apresentar suas conclusões e recomendações na próxima quarta-feira, 3 de abril. Susanna diz: “Ore para que as recomendações sejam levadas a sério e medidas sejam tomadas rapidamente. Peça por sabedoria para saber os passos a seguir daqui em diante. Clame para que Deus nos dê força e graça para continuar a luta pela verdade e justiça”.
Há um requerimento que pede que uma força-tarefa especial de investigação seja estabelecida para investigar de forma independente os desaparecimentos do pastor Raymond Koh, do ativista Amri Che Mat e do cristão Joshua Hilmy e sua esposa, Ruth Sitepu.
Susanna Koh nos enviou a seguinte carta:
Queridos amigos e parceiros de oração,
Obrigada por estarem conosco nos dois anos dessa difícil jornada. Pedimos suas orações pela decisão e recomendações do inquérito público da Comissão de Direitos Humanos da Malásia (Suhakam), que serão anunciados no dia 3 de abril, às 10 horas.
Queremos uma reunião com o inspetor geral de polícia e o primeiro-ministro, assim como uma força-tarefa independente, que seja imparcial e capaz de prender, processar e investigar sem medo ou favoritismo.
Continue a orar por sabedoria para sabermos os próximos passos daqui em diante. Clame para que Deus nos dê força e graça para continuar a luta pela verdade e justiça.
Jonathan, Esther [filhos do casal Koh] e eu estivemos em Chiangmai para um retiro de silêncio. A palavra-chave que levamos para casa foi “Deus é o Deus dos exércitos de anjos”. Ele está do nosso lado. Ele lutará a batalha por nós. Nossos olhos estão nele, nosso defensor e libertador.
Nós voltamos com a certeza e segurança no que Deus está fazendo e fará, agora e no futuro, no nosso país e no mundo.
Deus os abençoe e os mantenha em seu amor e paz.
Susanna Koh e família

Por Portas Abertas

Vivendo em constante vigilância




Lamparina. (Photo by Randy Fath on Unsplash)
Lamparina

Hoje estudaremos um dos temas mais importantes no tocante à batalha espiritual: vigilância. Estamos falando de uma tática espiritual que todo soldado de Deus precisa adotar, para que não se faça alvo fácil de ataques, nem deixe perder aquilo que foi confiado a seus cuidados.

I. O significado de vigilância

1. Vigiar, estar alerta

No registro da exortação de Jesus para que seus discípulos vigiassem – “vigiai e orai”(Mt 26.40) – a palavra usada no texto grego é gregoreó, que segundo a renomada concordância de James Strong significa: (1) dar estrita atenção ou ser cauteloso e (2) tomar cuidado para que por causa de negligência e indolência nenhuma calamidade destrutiva repentinamente surpreenda alguém. São ao total 23 ocorrências [1] desta palavra no Novo Testamento, o que demonstra a importância dela para a conduta do cristão que almeja verdadeiramente viver em santidade e finalmente encontrar-se com seu Senhor.
Segundo Vine [2], o termo gregoreó contrasta com a falta de firmeza e a indiferença. Portanto, quem vigia precisa manter a postura firme, como um soldado designado para a guarda de uma fortaleza; precisa também levar em conta todo perigo em volta, observando atentamente tudo o que ocorre e precavendo-se de possíveis ataques, como vigias que fazem segurança de carros-fortes. O bem que preservamos é muito mais valioso que todo dinheiro do mundo, o que demanda de nós maior vigilância do que daqueles que guardam os tesouros terrenos que são perecíveis. “Guarda o bom depósito”, orienta Paulo ao jovem obreiro Timóteo (2Tm 1.14). John Stott interpreta essas palavras como um chamado à defesa e preservação do evangelho genuíno contra os hereges que estão prontos a corrompê-lo e desta forma roubar da igreja o inestimável tesouro que lhe foi confiado. Pastores e líderes em geral necessitam indispensavelmente de vigilância, e não serem indiferentes quanto às ameaças de falsos pregadores com seus falsos ensinos!

2. Vigiar, não dormir, cuidar

Outra palavra neotestamentária traduzida em nossa língua por “vigiar” é agrypneo, que é formada de outras duas palavras em grego: a (partícula negativa, semelhante ao nosso “não”) e hypnos, que tem a ideia de silêncio ou sono (Hipnos era o deus do sono na mitologia grega). De hypnos vêm termos conhecidos em nossa língua portuguesa, como hipnose, que é um estado de total passividade como no sono. Assim, agrypneo significa literalmente não entrar em sono ou apenas não dormir. Ninguém contrataria um vigia que dorme na hora do trabalho!
As únicas quatro ocorrências do verbo agrypneo no Novo Testamento são essas:
(1) Marcos 13.33 – o significado aqui é de não dormir nunca (no sentido de não ser displicente), mas manter a vigilância constante, visto que o retorno de Cristo pode se dar a qualquer momento e não devemos ser pegos de surpresa;
(2) Lucas 21.36 – tem o mesmo significado acima, mas enfatizando o livramento, mediante a vigilância, tanto do pecado que nos assedia como do juízo vindouro que cairá sobre o mundo;
(3) Efésios 6.18 – atrelada à perseverança e à oração, a vigilância aqui significa não ceder à preguiça ou desânimo (como os que dormem), mas orar e interceder com firmeza e constância. O contexto é da batalha espiritual contra principados e potestades do mal;
(4) Hebreus 13.17 – fala dos pastores que “velam” (ARC, ARA) ou “cuidam” (NVI, ALM21) das ovelhas. Ao contrário do mercenário, que é egoísta e avarento e que foge do redil ao ver se aproximar o lobo, deixando as ovelhas sozinhas (Jo 10.12), o verdadeiro pastor está atento aos perigos, vigiando suas ovelhas constantemente e cuidando delas. Cuida contra a imoralidade crescente; cuida contra as heresias que se disseminam lá fora; cuida contra ensinos nocivos que possam ser semeados na igreja; cuida para assegurar a comunhão dentro do rebanho, etc.

3. Vigiar e estar sóbrio

Há uma correlação entre os termos vigiar e estar sóbrio no Novo Testamento. Ser sóbrio é estar calmo, sereno de espírito, sob moderação, tendo o controle de suas emoções e vontades. É o contrário de embriagado, descontrolado ou estar fora de si. Você confiaria a vigilância de sua casa a um homem bêbado? Você confiaria a guarda de seus filhos a um homem ou mulher descontrolados? Você confiaria a guarda de um bem nas mãos de uma pessoa que parece sofrer distúrbios mentais? O bom vigia não se embriaga, não vive se entorpecendo com drogas, nem toma para si qualquer coisa que possa interferir em sua visão e clara percepção das coisas! O bom vigia tem bom discernimento.
Em razão dessa ligação entre vigilância e sobriedade é que Paulo e Pedro escrevem:
“Não durmamos, pois, como os demais, mas vigiemos, e sejamos sóbrios” (1Ts 5.6)
“Sede sóbrios; vigiai; porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8)
Há muita coisa secular querendo nos entorpecer ou embriagar, desde as bebidas alcoólicas e drogas diversas aos entorpecentes morais como a fama, o apetite sexual desordenado, o dinheiro, o excesso de entretenimento (especialmente entretenimento digital – computador, celular, TV, etc.). Se não buscarmos no Espírito o fruto chamado “domínio próprio”, “moderação” ou “temperança” (Gl 5.22) poderemos ser sugados por estas coisas, nos tornamos viciados nelas e acabar tendo nossos sentidos drasticamente reduzidos e nossa percepção espiritual embaçada. Sejamos sóbrios, caros irmãos!

II. Jesus no Getsêmani

1. Getsêmani

O poeta Emílio Conde compôs alguns dos mais belos hinos do famoso hinário pentecostal brasileiro, a Harpa Cristã. Dentre eles, este que fala dos momentos em que Jesus, sozinho, orava ao Pai instantes antes de sua prisão:
No jardim Jesus Cristo clamava
Quando os ímpios O foram prender
E falando co’o Pai suplicava
Pelo cálice que ia beber 
[3]
Era no Getsêmani que ele estava, onde foram travadas as maiores batalhas de Jesus em seu ministério antes de ir à cruz. Boyer comenta que “A intercessão desta noite influenciou o céu, a terra e o inferno para todo o sempre”. De fato, ali foi o lugar da grande decisão quanto a beber todo o cálice ou não beber.
Após a ceia, ele chama seus discípulos com ele (com exceção de Judas Iscariotes, que já havia se retirado para a traição), deixa oito deles na entrada do lugar e leva outros três consigo para dentro do Getsêmani. Todavia, também destes três Jesus toma certa distância – “E, indo um pouco adiante…” (Mt 26.39) – e, sozinho, passa a agonizar em oração diante do Pai.
Aos discípulos foi dada a ordem: “ficai aqui e vigiai comigo” (v. 38). Há momentos de orar, e há momentos de vigiar – essa era a hora dos discípulos vigiarem tanto seu próprio temperamento, devido o que estava prestes para acontecer, quanto vigiarem também o ambiente, garantido que o Senhor pudesse dedicar-se à oração, sem interrupções desnecessárias. Infelizmente, como constatou o Senhor (vv. 40-45), os discípulos não mantiveram a posição vigilante e entregaram-se ao sono.

2. A angústia de Jesus

Mateus registra que Jesus “começou a entristecer-se e a angustiar-se” (Mt 26.37), mas Lucas escreve em cores mais vibrantes a agonia de Jesus: “E, estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lc 22.44, ARA). Não é possível ser dogmático quanto ao que o médico Lucas está realmente dizendo aqui, mas Keener dá-nos duas possibilidades de interpretação:
Alguns textos antigos relatam o fenômeno raro de suar sangue; a expressão de Lucas talvez se refira, de fato, a esse fenômeno (ocasionalmente associado, hoje, a situações de estresse extremo), ou talvez signifique apenas que Jesus está suando profusamente e o suor goteja como se fosse sangue. [4]
Seja como for, tamanha era a angústia de nosso Senhor! Mas qual a razão de tamanha tristeza e dor?

3. O cálice

Como bem colocado no comentário da Lição por Esequias Soares, “o seu pavor não era a morte, mas o ser separado do Pai ao assumir os pecados de toda a humanidade (2Co 5.21)”. De fato, é aqui onde muitos caem no engano de pensar que como homem Jesus temeu a morte e por isso rogou insistentemente ao Pai para livrar-se dela, se isso fosse possível. Entretanto, mesmo em sua humanidade Jesus não temia a morte, e há razões óbvias para isso: ele veio consciente de que deveria morrer – esta era a sua grande missão; ele mesmo exortou seus discípulos para que não temessem os que matam o corpo. O cálice que ele pede ao Pai que passe dele, se lhe for possível, é o cálice da ira pelo qual o Pai viraria o rosto de seu Filho, quando nele pesassem os pecados do mundo inteiro! “Deus meu! Deus meu! Por que me abandonastes?” (Mt 27.46) – era esse abandono, ainda que temporário, que o Filho não queria sofrer.
Orlando Boyer comenta essa passagem com muita clareza e explica-nos:
A minha alma está profundamente triste (Mc 14.34): A morte de Jesus na cruz não lhe foi imprevista. Anunciada desde o Éden, proclamada pelos profetas, prefigurada no Velho Testamento, estava constantemente perante Ele. E Ele mesmo a revelou aos discípulos desde o tempo que resolveu firmemente ir a Jerusalém, Mt 20.17-19. Anunciou-a simbolicamente quando nesta mesma noite, instituiu Sua Ceia. Mas foi sempre com toda a calma. Parece que este maior grau de tristeza que começou a sentir em Getsêmani, como jamais antes, foi por causa do peso do pecado do mundo que começou a levar. Não pode chegar a ter contato com a culpa e iniquidade da humanidade sem Sua alma pura sentir uma “tristeza mortal”. São somente os cegos de espírito que não sentem o grande horror com o pensamento de ficarem separados de Deus, Mc 15.34. [5]
Há em nós o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus? Há em nós tamanho anseio e zelo pela presença do Pai? Ou para nós tanto faz ficarmos longe de sua presença? No Getsâmani, Jesus nos convida: “ficai aqui e vigiai comigo”. Deus no dê este mesmo sentimento de profundo desejo pela comunhão perene com o nosso Pai!

III. Exortação à vigilância

1. No contexto escatológico

Como comentado no primeiro tópico, nos textos de Marcos 13.33 e Lucas 21.36 temos a exortação de Jesus para vigilância, tendo em vista sua vinda iminente (pode se dar a qualquer instante) e das recompensas que cada um receberá, bem ou mal, conforme suas obras. O texto de Apocalipse 16.15 é um alerta: “Eis que venho como ladrão. Bem-aventurado aquele que vigia, e guarda as suas roupas, para que não ande nu, e não se vejam as suas vergonhas”.
Jesus, desde o sermão do monte, ensinava que somente os limpos de coração verão a Deus (Mt 5.8), e é uma verdade axiomática das Escrituras que sem santificação ninguém verá o Senhor (Hb 12.14). Portanto, os que vivem a bendita esperança do arrebatamento da Igreja precisam manter uma posição firme até que ele volte! Não podemos cair no sono da indolência (que não sente dor, que não reage), antes devemos estar acordados, atentos ao “pecado que tão de perto nos rodeia” (Hb 12.1), e, na torre de vigia, termos cuidado de nós mesmos para não cairmos em tentações (Gl 6.1).

2. Na vida cristã

O Salmo 141, de Davi, é um texto belíssimo sobre os cuidados que um servo do Senhor precisa ter em sua vida diária. Todavia, como ele não pode de si mesmo vencer as tentações e ter garantia de vitória contra o mal, pede humildemente o auxílio divino:
“SENHOR, a ti clamo, escuta-me; inclina os teus ouvidos à minha voz, quando a ti clamar. Suba a minha oração perante a tua face como incenso, e as minhas mãos levantadas sejam como o sacrifício da tarde. Põe, ó Senhor, uma guarda à minha boca; guarda a porta dos meus lábios. Não inclines o meu coração a coisas más, a praticar obras más, com aqueles que praticam a iniquidade; e não coma das suas delícias” (vv. 1-4)
Precisamos vigiar nossa mente para que não se transforme em ninho de impurezas; precisamos vigiar nosso coração para que os desejos e as emoções não se entreguem ao que é ilícito e indecente; precisamos vigiar nossas mãos para que a violência e a maldade não se apropriem delas; precisamos vigiar nossos lábios para que em todo tempo nossas palavras sejam temperadas com sal, agradáveis aos que ouvem (Cl 4.6); precisamos vigiar nossos pés para que nossos caminhos sejam sempre aprovados pelo Senhor!
Cônjuges devem vigiar seu casamento (sem ciúme doentio, mas com aquele mesmo zelo que Cristo tem pela Igreja, sua Noiva amada); pais devem vigiar seus filhos (veja-se a maldade multiplicando entre os adolescentes e jovens, muitos influenciados por jogos digitais saturados de violência, ocultismo e outros males); e pastores devem vigiar seu rebanho (não no sentido de intrometer-se em questões de foro íntimo de cada membro, mas no sentido de acompanhar o desenvolvimento espiritual e moral das suas ovelhas).
Temos três razões para a vigilância constante:
(1) “o diabo anda em nosso derredor, buscando a quem possa tragar” (1Pe 5.8)
(2) “o pecado tão de perto nos rodeia” (Hb 12.1)
(3) “a carne é fraca” (Mt 26.41)

3. Vigiar e orar

Assim como vigilância e sobriedade, vigilância e oração também constitui um par inseparável! “Vigiai e orai”, exorta Jesus aos seus discípulos (Mt 26.41). Há os que observam muito e oram pouco – tornam-se juízes de todas as situações e de todas as pessoas, mas fracassam na comunhão com Deus; por outro lado, há os que oram muito, mas estão sempre dando lugar ao pecado e fracassando tão logo ponham-se de pé, devido não guardarem vigilância. Se em nossa vida vigilância e oração forem um dueto, que maravilhosa canção será nossa conduta diária para Deus!

4. O espírito e a carne

Infelizmente os discípulos de Jesus não conseguiram vigiar, isto é, manterem-se acordados e atentos nem por uma hora sequer enquanto estavam no Getsêmani (Mt 26.40). Na verdade, Jesus bem poderia perguntar a muitos de nós hoje que tão facilmente nos acomodamos ao ativismo profissional ou ao entretenimento que a TV e a Internet proporcionam: “nem uma hora pudeste vigiar comigo?”. Alguns se escusam na “falta de tempo” para orar, ler a Bíblia, louvar ao Senhor e dedicarem-se exclusivamente à adoração por algumas horas do dia. Mas quantas horas mais Deus precisaria nos dar além das 24 horas diárias para que nos dedicássemos à oração, ao estudo da Palavra e ao louvor ao Seu nome? Será que nos falta tempo ou falta, em verdade, disciplina e correta mordomia do tempo? Deus irá cobrar o tempo que desperdiçamos com futilidades…
Jesus diz que é preciso vigiar e orar para que não entremos em tentação, pois “o espírito está pronto, mas a carne é fraca” (Mt 26.41). Que querem estas últimas palavras dizer é motivo de divergência entre os expositores bíblicos. Entendo que em face do contexto, Jesus está dizendo que há sempre uma boa vontade para fazer o que é certo, mas a carne (isto é, o corpo, e não carne no sentido teológico como referindo-se à inclinação carnal, pecaminosa) é fraca. Ou seja, Jesus está fazendo uma constatação que muitos de nós também já fizemos: queremos passar vigílias com Deus, mas o corpo quer dormir; queremos jejuar, mas o corpo pede por comida; queremos realizar propósitos espirituais, mas o corpo entrega-se ao enfado. Que fazer? Não desistir, nem se entregar à indisciplina. Vigiai e orai! Afinal, “o reino de Deus é tomado a força” (Lc 16.16).
Temos disciplina pra todas as questões seculares (estudo, trabalhos, lazer, etc.), mas fracassaremos na disciplina quanto às coisas espirituais? Vigiai e orai! Necessitamos mais da presença de Deus do que dos diplomas, do salário ou das férias! Então, não sejamos descuidados quanto à nossa vida espiritual. Ponderemos em nossa coração a exortação paulina: “Tu pois, sofre as aflições, como bom soldado de Jesus Cristo. Ninguém que milita se embaraça com negócios desta vida, a fim de agradar àquele que o alistou para a guerra” (2Tm 2.3,4), e ainda esta também: “Se sofrermos, também com ele reinaremos; se o negarmos, também ele nos negará” (v. 12).

Conclusão

Há muitas figuras usadas na Bíblia para ilustrar o caráter, a conduta e o trabalho do cristão: o atleta, o agricultor, o pescador, o soldado, o mensageiro, etc. Hoje aprendemos que a figura do vigia ou guarda é igualmente apropriada para descrever a postura atenta e prudente que deve ser adotada pelo cristão. Somos sentinelas de Deus neste mundo! Não deixemos as trevas pegar-nos de surpresa, não ignoremos os ardis de satanás, nem negligenciemos o cuidado com nossa própria natureza humana. Ajude-nos Deus a colocar em prática tudo o que aprendemos. “Guarda o que tens para que ninguém tome a tua coroa” (Ap 3.11)
Notas e referências
[1] Embora a Lição diga 22 vezes, são, na verdade, 23 vezes ao total a ocorrência do verbo gregoreó no Novo Testamento
[2] Dicionário Bíblico Vine, CPAD, p. 1059
[3] Harpa Cristão, 296, 1° estrofe
[4] Craig Keener. Comentário histórico-cultural da Bíblia Novo Testamento, Vida Nova, p. 280
[5] Orlando Boyer. Espada Cortante 2, CPAD, p. 186
Por Tiago Rosas ( Gospel Prime)