Insuficiência da oração

Foto: Artur Vitor
Há uma variável de natureza sócio-psicológica que aumenta cada vez
mais o desinteresse pela vida de oração. Trata-se da imediatidade do
tempo produzido na era da globalização informacional, que opera
com respostas precisas em “tempo real”. Isto acaba afetando a
subjetividade dos indivíduos na “vida real”. Sua psicologia passa a
(re)agir com esta mesma disposição: a de querer respostas rápidas, em
tempo real, aos problemas que emergem do cotidiano.
Este funcionalismo pragmático internalizado pela psicologia da vida
moderna gerou uma intolerância a conceitos como “atraso”, “demora”,
“retardamento”, e coisas do gênero. Dispositivos que se acionam na
perspectiva desta funcionalidade pragmática fazem as coisas acontecerem
com a rapidez que se deseja para obter o que se quer.
Esta cultura mental do “eu quero isso agora” tem criado uma
disposição intolerante para o cultivo de uma vida de oração, e paciência
para esperar a concretização das metas que nela são colocadas e
que demoram a se transcorrer em nossa história de vida na fé. Igrejas
evangélicas brasileiras, que promovem grandes concentrações, alvitram
soluções prodigiosas para problemas aparentemente insolúveis de
forma instantânea, em tempo relâmpago. As reuniões de igrejas se
tornaram um dos principais agentes de produção da crença de que a oração
eficiente é aquela que produz resultados desejados instantaneamente.
No entanto, há ainda outra variável psicológica que tem servido de
justificação para o baixo interesse pela vida de oração. Trata-se do
“medo de continuar acreditando” na eficiência política da providência
enquanto se ora, e ser frustrado por ela. As necessidades não supridas,
ou os desejos não realizados que se acumulam ao longo da trajetória de
fé dos evangélicos em geral, está na base da história dos fracassos.
Um pedido não concedido pode exaurir, da esperança da fé, a obstinada
motivação que produz o encanto pela oração.
Ao orar, as pessoas procuram legitimar as razões da fé que querem
confirmar na experiência mística da prece, a prova viva da existência de
um Deus-Senhor que governa a história na condição de um “Pai
atencioso”. As respostas obtidas pelo pedido da fé acabam ganhando um
significado apologético que deseja realçar a natureza objetiva da
relação viva e pessoal entre o sujeito solicitante e o Deus a ele
revelado. Este fenômeno pode ser compreendido como “epifanização
da bondade divina”, configurada num gesto acolhedor, que demonstra
encarnações históricas do generoso amor de Deus pelos membros de sua
grande família.
Uma última variável que parece alimentar o desinteresse pela vida de
oração nos dias de hoje é o “medo da reincidência” de uma experiência de
frustração com as expectativas subjetivas que não foram materializadas
no cotidiano da fé. A angústia de uma espera que se prolonga na
psicologia da súplica pode significar uma dúvida em relação à realização
ou não de um desejo externado pela garganta da fé no contexto da
oração.
Os horizontes volitivos que se figuram entre as necessidades
humanas e os desígnios de Deus nem sempre se convergem. Na dúvida,
existe quase sempre um protesto da angústia que teme não estar a par da
misteriosa gramática da vontade soberana de Deus. O desconhecimento dos
seus desígnios acaba cimentando a incerteza aflita da oração que teme
nunca ser respondida por ele. Por isso é que nela (na oração), a fé
procura se alimentar da esperança de realizações que apontam para o
telos da promessa, buscando, assim, romper com o horizonte da tradição
de uma existência marcada pela negatividade histórica.
Estas parecem ser as principais razões que estão na base de uma
realidade de vida que revela o desinteresse crescente pela prática da
oração de milhares, quiçá, milhões de pessoas que desejam uma vida de
fé que se ajuste ao perfil funcional-pragmático do mundo moderno.
Afinal, o que a oração significa para a fé de um cristão no mundo
moderno? Ela se tornou insuficiente? Estas perguntas podem apertar ainda
mais o cinto da angústia trazido sempre para o contexto da oração.
Porém, a fisionomia da graça consegue fazer com que a alegria da espera se transforme em “política de persistência da fé” (
Rm 8.24-25). O apóstolo Paulo chega fazer a seguinte recomendação: “
sejam perseverantes na oração” (
Rm 12.12).
A graça de Deus se revela preciosa no corredor estreito da experiência
do medo trazida para a linguagem de fé da oração. Nela, este mesmo
apóstolo pede para ser eximido da experiência com a dor do sofrimento (
2Co 11.7-10).
Mas é também a partir dela (da experiência de oração) que ele aprende a
não desistir da vida permeada por temores e contradições — ao ouvir o
doce som da voz da providência dizer: “
a minha graça te basta, porque o poder se aperfeiçoa na fraqueza”.
Por que a oração se tornou insuficiente para maioria das pessoas no
mundo moderno? A resposta pode ser ampla e complexa, mas também pode ser
feita de maneira simples e objetiva: as facilidades do mundo moderno
criaram vícios que agora operam contra a natureza da própria fé na vida
de oração: desaprendemos a esperar em Deus, a acreditar que Ele
pode mudar tudo, inclusive, nós, mesmo quando nada
aparentemente acontece ao nosso redor. A mudança externa quase sempre
vem precedida de uma mudança interna, que acontece no “quarto secreto”,
revelando o “grande milagre” que opera na mente daqueles que aprenderam a
esperar em Deus e adquiriram, com isso, a paciência, e com ela,
conseguiram obter a maturidade da fé. Este é o milagre que ainda precisa
acontecer na vida dos cristãos modernos.
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